O bouquet

 

bouquet

A propósito de um post do blog da Margarida Rebelo Pinto com o título “Rosas no ar, corações em terra” (http://sol.sapo.pt/blogs/margaridarebelopinto/archive/2010/05/28/Rosas-no-ar_2C00_-cora_E700E300_o-em-terra.aspx) tive vontade de escrever sobre o mesmo tema, espero que ela me desculpe pela ousadia.

 

 

Os trinta anos aproximam-se e com eles as pressões sociais e familiares para ter uma vida dita normal e comum. Que quer isto dizer?

Pois é, isto quer dizer que depois de determinada idade, tendo terminado os estudos e tendo um trabalho, chegou o momento de casar e constituir família.

 

Na minha adolescência planeava uma vida bem sucedida no trabalho, uma vida onde ingredientes como Homem e Filhos, não estariam incluídos, apenas uma carreira de sucesso, uma vida desafogada e muitas viagens.

Com o passar do tempo, comecei a acreditar que valia a pena AMAR e passei a pensar que se calhar não seria tão má ideia partilhar a minha vida. O relógio biológico começou a bater-me à porta, mas essa conversa de filhos ficará para outras núpcias… (assunto delicado que ainda hoje me custa falar).

 

Bem, voltando ao que me fez escrever este post: O belo do ramo da noiva que rodopia no ar até cair nas mãos de uma solteira ou pelo menos desimpedida, que segundo reza a tradição será a próxima contemplada a ter uma festa de casamento (o que não lhe dizem é p preço que tem a pagar pela mesma: além de levar um homem para casa, que deveria ser para o resto da vida – sem dúvida muito tempo -  terá que ter sempre a casa impecável, roupa lavada e passada, comida na mesa a tempo e horas, e dizer sempre io io tipo mulinha. OK! Estava a brincar, eu acredito em relacionamentos felizes e em casamentos que duram uma vida!)

 

Tal como a Margarida, também eu fui ao belo do casamento, teria sido um casamento normalíssimo não fosse o casamento do meu priminho, e não fosse este casamento sinónimo de que sou a ultima solteira da família. Faço parte de uma família de homens (que eu adoro) além de ser a única mulher da minha geração (sim porque agora há mais duas pinpolhas lindas) sou também a mais nova, ou seja a menina mais mimada e protegida do mundo e arredores.

Muito feliz e contente lá fui eu para o dito casamento. Mas já sabia o massacre que me ia esperar:

- Então vieste sozinha? Não trouxeste namorado?

- Está a ficar tarde… de que estás à espera? Sabes que tens problemas para ter filhos… Quanto mais tarde pior…

- Não escolhas muito.

- Se calhar estás à espera da pessoa errada…

 

BLA BLA BLA

 

No meio disto tudo limitava-me a olhar para a minha mãe, para encontrar nos seus olhos o apoio que esperava e a paciência para não me saltar a tampa e gritar:

 

- PORRA METAM-SE NA VOSSA VIDA!

 

 

Não basta a pressão que eu sinto e coloco em cima de mim mesma?

É fantástico ser gira, nova (pelo menos por enquanto), inteligente, fazer o que gosto, ter uma casa só para mim, limpar e passar a ferro quando me dá na telha, acordar e dormir quando me apetece, sair para onde me dá vontade, simplesmente viver sem ter que dar cavaco a ninguém. No entanto e apesar de ser fantástico, é muito triste depois de um dia de trabalho (e ficar a fazer horas até esquecer para não ter que vir para casa) colocar a chave na porta, ter a casa escura, sem ninguém à nossa espera, nem que seja para reclamar, tomar um duche rápido e voltar a sair para comer alguma coisa na rua, porque não tenho vontade de comer sozinha… e chegar à rua de cara alegre e sempre bem disposta para ouvir elogios do género:

- Estás cada vez mais gira! (responder com um sorriso e pensar de que me serve?)

Para voltar a vir para casa (tarde de preferência) deitar naquela cama enorme, gelada e vazia, para acordar e nem pés na cozinha por, sair para o emprego, e voltar à mesma rotina.

É muito giro chegar ao fim-de-semana e vingar-me a dormir ou sair sem destino, porque pelo menos assim não sinto a falta de ter uma casa cheia de família, com direito a homem e crianças…

Não basta já tudo isto e ainda tenho que levar com os outros a fazerem-me perguntas do tipo:

- Quando é que fazes a tua vida?

 

Por acaso há alguma regra que diga que ter uma vida implica ter um companheiro(a) e filhos?

Após um dia de massacre, eis que chega a hora de a noiva reunir o mulherio dito livre, onde apenas entram solteiras, separadas, divorciadas ou viúvas e se vira de costas para as mesmas e brinca fingindo que vai atirar o ramo, e este ou se estatela no chão esfrangalhando-se ou é disputado por um bando de histéricas!

 

Como diz a minha mãe nada em mi é normal, e até no casamento dos outros eu tinha que ter algo diferente. Quando deveria chegar a dita hora do ramo da noiva voar pelo céu até cair nas mãos de alguém eis que os noivos me chamam e me oferecem o ramo. E eu a pensar, que aquilo não me estava a acontecer. Além de estar tudo a olhar para mim, eu já me sentir só o suficiente, não precisava que me lembrassem que estava sozinha.

 

Abraçaram-me e ofereceram-me o ramo, eu perguntei porquê e eles apenas responderam que eu era a Menina deles e que agora só faltava eu.

Fiquei feliz com o gesto, porque sei que sou realmente a Menina, sei que têm um carinho enorme por mim, e apenas me querem ver feliz, mas eu não preciso que me lembrem que estou sozinha.

 

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Escusado será dizer que essa noite foi dura, muito dura depois de ter chegado ao meu quarto e ter ficado comigo mesma.

 

 

O ramo branco a minha mãe levou para casa secou e guardou…

 

Eu guardo comigo a esperança de um dia encontrar alguém que me faça acreditar que vale a pena vestir-me de branco, entrar na igreja e fazer um juramento para toda a vida e que me faça sonhar com um passeio à beira mar daqui a muitos anos bem velhinhos de mão dada.

 

Porque apesar de tudo acredito em famílias felizes e casamentos duradouros… Uma vida pode ser pouco tempo um dia pode ser uma eternidade.

 

PS- Já passou quase um ano depois deste casamento, este casal lindo já tem um rebento um Gajo. Parabéns!

 

 

 

publicado por Sonhos Trocados às 02:21 | link do post